João Carlos Martins: “A vida não é só tragédia”

João Carlos Martins: “A vida não é só tragédia”

Em quase doze anos como regente, João Carlos Martins já realizou mais de 1,4 mil concertos. De luxuosos teatros até a “periferia das periferias”, levou música clássica para mais de 13 milhões de pessoas. Antes de construir essa história, precisou lutar repetidas vezes por uma vida em que não precisasse abandonar seu “velho companheiro”: o piano. Em palestra realizada nesta sexta-feira (3) em São Paulo, durante o evento ConnecIn, o maestro relembrou sua história de vida – de tristezas e conquistas com a música clássica. E afirmou: “A vida não é só tragédias”.

O sonho
João Carlos Martins costuma dizer que sua carreira começou quando o seu pai nasceu, em 1898. Na pequena cidade de Braga, em Portugal, José Eduardo Martins sonhava em ser pianista. Três dias após iniciar os estudos do instrumento, ainda criança, teve a mão decepada em uma gráfica onde já trabalhava. Quarenta anos após o episódio, contudo, o filho João inicia os estudos de piano aos 8 anos de idade. Rapidamente ganhou concursos nacionais já tocando a obra de Johann Sebastian Bach. Aos 13 anos, deu a largada em sua carreira nacional e aos 18 anos partiu para ganhar os palcos do mundo. “Parecia um sonho, tocava com as primeiras orquestras do mundo”, conta.

Uma pedra no caminho
Aos 26 anos, passando uma temporada em Nova York, João olhou para o famoso Central Park. Foi quando notou um grupo jogando futebol. Não resistiu, foi ao encontro depois e descobriu que eram brasileiros. Entrou no jogo, estava se divertindo até que veio a queda. Ele acabou rompendo um dos nervos do braço. O acidente foi sério, a recuperação difícil e, naquele momento, lhe restou uma solução paliativa: tocar com dedeiras de aço. “Todos os concertos que fazia deixavam sangue nas teclas dos pianos, mas eu insistia. Foi quando um dia li uma crítica negativa no New York Times e aí pensei: ‘Está na hora de parar, não dá mais'”.

João Carlos Martins voltou ao Brasil, sem “falar de música”. Iniciou uma faculdade, vendeu pianos e, alguns anos depois, acabou tornando-se empresário do ex-campeão mundial de boxe Éder Jofre. “Disse a ele que o ajudaria a recuperar o título mundial”. Parecia uma tarefa difícil, já que Jofre tinha 37 anos. O atleta não só conseguiu reconquistar o título [em 1973, ao derrotar o cubano Jose Legra, em luta promovida por Martins], como despertou no pianista a vontade de voltar à música. “Quando vi o juiz levantando a mão do Éder pensei: ‘Como eu sou covarde de ter desistido do piano'”. João comprou um piano novo e voltou a tocar. Ganhou confiança e logo depois ligou para seu empresário pedindo que marcasse um concerto no Carnegie Hall. “Ele me falou: ‘Você sabe que lá são 2,8 mil lugares e ninguém mais se lembra de você, certo?'”. Até o taxista que o levou para a apresentação, no dia marcado, questionou “que diabos estava acontecendo ali naquela noite”. João tocou, foi aplaudido de pé, retomou contratos com gravadoras e voltou a viajar pelo mundo.

Adversidades
Pelos próximos sete anos, João Carlos Martins acreditaria que havia, enfim, superado as adversidades. Até que descobriu uma lesão causada por esforços repetitivos. Pela segunda vez, ele se afastou do piano e da música. Só não selou o final de sua carreira porque leu uma “crônica bárbara” de seu pai no jornal defendendo-o. Com operações e cirurgias, ele retomou o piano novamente e voltou para finalizar a gravação completa da obra de Bach.

Minha mão esquerda
A vida de João Carlos Martins caminhou bem: viajando, tocando, vivendo. Até que ao sair de um teatro na Bulgária ele foi assaltado e sofreu uma lesão cerebral, que o levou ao internamento. Foram oito longos meses no hospital, com o lado direito do corpo todo comprometido. “Após um longo período, eu comecei a retomar algumas coisas. Um dia, meus amigos foram até o hospital e choraram ao ver que eu conseguir tocar umas cinco notas por segundo no piano”. Um ano depois, ele já fazia 21 notas por segundo. Não demoraria a voltar a tocar no Carnegie Hall. Desta vez, a lesão comprometeria mais seus movimentos. “Não conseguia conversar com uma pessoa por mais de dois minutos”. Foi visitar médicos e só ouvia um diagnóstico: é preciso cortar um nervo e, com isso, perder a mão que lhe trouxera tanto sucesso em nome de uma qualidade de vida melhor. João Carlos resistiu à ideia, até que seu sofrimento ultrapassou a sua institência em tocar. “Dei um dos maiores concertos da minha vida, peguei o avião para Nova York e operei. Ao final, minha mulher me perguntou: ‘E agora, João?'”. Pelos próximos três anos ele daria sequência à carreira tocando apenas com a mão esquerda.

Um instante, maestro
João Carlos Martins correu Europa e Ásia, tocando apenas com uma mão. Até que veio o tumor. “Aos 64 anos, após 19 operações, os médicos só conseguiam me dizer: ‘Você nunca mais vai tocar piano profissionalmente’. O mundo caiu para mim”. No dia seguinte ao diagnóstico, João foi estudar regência. Entre muitas partituras e lições, ele começou a enxergar a música como instrumento de mudança social após alguns jovens cruzarem seu caminho. “Eu regia há seis meses quando um jovem me abordou pedindo R$ 10. Perguntei o motivo e ele me disse que estava com fome. Então comentei que ele tinha talento, que eu criaria uma bachiana jovem para ele tocar e nunca mais precisaria pedir R$ 10”. A partir dali seu trabalho passaria a incluir concertos nas “periferias das periferias”, até na antiga Febem. Um dia, abriu a porta de sua casa e encontrou uma carta assinada por jovens que haviam acabado de conquistar a liberdade assistida. Na carta, uma frase e um agradecimento: “A música venceu o crime, tio maestro”.

Fonte: Época Negócios

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