O segredo de escrever bons discursos, segundo o criador de House of Cards

O segredo de escrever bons discursos, segundo o criador de House of Cards

Por trás do sucesso da série “House of Cards” — a mais assistida compulsivamente por brasileiros no Netflix —, está o livro que inspirou a trama. O autor da obra, o britânico Michael Dobbs, já teve diversas carreiras: político, jornalista, radialista, publicitário e dramaturgo. E, embora o prestígio hoje venha principalmente do seu livro sobre as articulações políticas, Dobbs também atuou como redator de discursos. Foi sobre esse árduo trabalho que falou durante uma conferência para divulgar o lançamento do DVD da quarta temporada da série.

“Eu acho que existem dois tipos diferentes de público que você tem de ter em mente quando está escrevendo um discurso”, disse Dobbs, segundo o jornal Financial Times. Ele fez uma distinção entre aquelas pessoas que vão prestar atenção e analisar linha por linha do que você diz, e aquelas que “não vão lembrar dos detalhes”, mas estão lá “pela atmosfera”.

E isso se aplica aos negócios também. Um discurso precisa tentar atingir ambos os públicos. “Os maiores sucessos são aqueles discursos que podem passar a mensagem e ainda tocar as pessoas ao mesmo tempo. Mas a maioria tende a cair em um campo ou outro”, diz Dobbs.

Ele comenta também a importância da conclusão do texto: “Você tem que saber onde quer terminar. Um grande discurso vai levar as pessoas de A para B. E, a fim de ir de A para B, você pode escolher diferentes caminhos, mas precisa saber onde exatamente onde vai acabar”.

Há ainda a questão de colocar aquelas palavras na boca de outra pessoas (um presidente, por exemplo). Alguns políticos estão muito associados a seus redadores — Ronald Reagan com Peggy Noonan; Barack Obama com Jon Favreau; John F. Kennedy com Ted Sorensen. Dobbs diz que escrever para outros políticos é “extremamente difícil”. Para fazer um discurso parecer apaixonado e sincero, algo tem que vir “de dentro”, diz. “Se você não conhece extremamente bem aquele assunto, é muito difícil fazer outra coisa do que só dizer uma série de palavras.”

Na opinião dele, o melhor escritor de discursos do Reino Unido na segunda metade do século passado foi o dramaturgo Ronald Millar, que escreveu “The lady’s not for turning” para Margaret Thatcher. O segredo era que “Ronnie conhecia Margaret extremamente bem. Eles tinham uma empatia — uma simpatia — que eu nunca poderia ter com ela”.

Conhecendo-a tão bem, Millar percebeu, por exemplo, que não fazia sentido entregar um discurso brilhante logo de cara, diz Dobbs. Ela iria rejeitar imediatamente, era o tipo de pessoa que sempre dizia: “Eu quero algo melhor — isso não é bom”. Ele entregava cerca de cinco esboços primeiro e guardava o seu primeiro texto até o fim. E acabava ouvindo um elogio de  Thatcher. Uma estratégia bem calculada — Frank Underwood iria gostar.

Fonte: Época Negócios

 

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