As lições de carreira de Arthur Ávila, matemático brasileiro que ganhou a medalha Fields

As lições de carreira de Arthur Ávila, matemático brasileiro que ganhou a medalha Fields

Arthur Ávila é descrito pelo seu amigo, o documentarista João Moreira Salles, como alguém que tem “apetite e paladar” para coisas extremamente difíceis. “Ele atua de maneira selvagem, entra em um campo, resolve o problema e parte para o próximo, em uma outra área”, diz João, buscando assim definir o trabalho do matemático. Ávila ganhou projeção nacional em 2014 ao ganhar a medalha Fields, considerado o “Nobel” da área e concedida a apenas 56 matemáticos desde sua criação, em 1936.

Sua carreira, contudo, começou em 1992, quando disputou a sua primeira Olimpíada. Ganhou sua primeira medalha – de ouro. Dali, viriam uma série de medalhas estaduais e nacionais e a chance de conseguir uma vaga no prestigiado Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Começaria o mestrado ao mesmo tempo em que cursava o 2º grau e, aos 18 anos, já estava no doutorado. Ávila formou-se doutor, tendo em sua banca dois vencedores da medalha Fields. Escolheria a França para fazer pós-doutorado e, aos 29 anos, torna-se o mais jovem profissional a assumir a direção do centro de pesquisa, o Centre Nacional de la Recherche Scientifique (CNRS). Atualmente, mora no Rio, e concilia o trabalho no centro francês com estudos no Impa. Em conversa com João Moreira Salles, em evento da Fundação Estudar, realizado em São Paulo nesta semana, o matemático comentou alguns dos momentos importantes em sua trajetória. Confira:

* Ele não fez um plano de chegar ao topo. Mas soube identificar as oportunidades

“Percurso não é uma questão de um plano que foi feito. Aconteceram fatos em vários momentos, que eu tive a sorte de ser exposto, e acabaram me levando a progredir mais. Desde pequeno eu tinha interesse em matemática, mas também gostava de outros assuntos. Estudava todos eles por conta própria – sempre fui além do que o que era ensinado. Mas, aos 13 anos, fui exposto às Olimpíadas de Matemática. Achei divertido, o aspecto competitivo estimulava o estudo e fui em frente. Por sorte, as olimpíadas estão muito ligadas ao Impa, um instituto de histórico excelente, de qualidade, que era ali perto de casa. Eles me ofereceram uma possibilidade de ver se eu poderia desenvolver minhas atividades lá. Gostei, fiz mestrado, doutorado e acabei fazendo ali uma transação que poderia ou não ocorrer bem”.

* Ele era quieto, fechado. Soube ouvir os mentores que apareceram

“Ao buscar alguma descoberta original, você nunca sabe onde vai dar. Você pode ter escolhido algo que não tem solução possível e adentrar um beco sem saída. Mas aí no Impa tive contato com um enorme fluxo de pessoas de alto nível que passam por ali regularmente. E, um momento marcante foi quando conheci o matemático ucraniano Mikhail Lyubich. Tive contato com ele e eu disse que estava pensando em um teorema. Ele foi muito aberto e nós começamos a discutir o problema matemático. Foi algo muito surpreendente para mim, porque eu era muito quieto como aluno, não abria a boca nunca com medo de correr o risco de falar algo errado. E essa postura não é boa para conduzir uma pesquisa, porque em matemática, você só percebe que tem algo errado muito lá na frente. O Lyubich não tinha esse medo. A intuição dele nem sempre apontava o caminho certo mas aproximava de uma solução. O que me impressionou foi que ele não tinha medo de errar, dizer bobagens ou mesmo de ficar ali, pensando, à deriva. Foi a primeira vez que vi alguém fazendo pesquisa ao vivo, na minha frente. Esse estilo dele me influenciou muito. Converso com ele até hoje”.

*Aprendeu que a matemática não é uma ciência individual

“A matemática envolve bastante gente por apenas uma questão: muita coisa depende do acaso e não dá pra planejar tudo. Você nunca sabe quais linhas são mais frutíferas. Muitas pessoas trabalham em várias coisas que não seriam considerados a principal vertente ou fazem investigações consideradas menos nobres e acabam encontrando descobertas inesperadas que acabam retornando para o ramo fundamental. Essas pessoas abrem caminhos, fazem contribuições, atraem novos campos, e então algum outro matemático vai começar a trabalhar a partir daquele ponto. E pensar que, quando era garoto nem sabia que matemática poderia ser uma carreira”.

* Nem sempre estudar em Harvard é o melhor para sua carreira

“O Impa é uma instituição de extrema qualidade. Mas é completamente diferente da instituição que estudei posteriormente, na França. Lá é uma atividade constante, um universo imenso, há uma série de grandes palestras diariamente. E, se você já chega lá de cara, pode se afogar naquele mundo de opções e até se intimidar. No Impa, eu sentia medo, claro, mas não estava em um ambiente que podia me esmagar. Tinha pouco conhecimento, mas fazia uma coisa de cada vez. Minha sorte foi não ter ido por exemplo para Harvard ou Princeton. Nos Estados Unidos, eles planificam tudo muito cedo, têm obsessão com rankings. E eu ignorava isso e fui aprendendo a matemática, sem esta preocupação. Na França, já cheguei mais adaptado para enfrentar aquele mundo. Cheguei mais confiante, trabalhando nas linhas que já havia começado, indo sem desespero e com consciência de que eu sabia, de fato, muito pouco”.

* Para que serve a matemática?

“Existe um fluxo de ideias que acontecem e criam descobertas que vão ajudar alguém em algum determinado campo. Muitas vezes há algo que vem à tona e acaba sendo o que faltava para alguém resolver um problema concreto. Às vezes, a pessoa que usa uma máquina vê um problema matemático que vai acabar sendo a diversão de um matemático abstrato que nem liga para máquinas. A matemática permeia as descobertas em física e em outras áreas. Um médico que esteja lendo um estudo pode usar a matemática para ser capaz de interpretar corretamente, por exemplo, informações novas que chegam sobre um novo tratamento”

* Medalhas não resolvem problemas

“Eu deixo que a medalha Fields crie uma pressão sobre meu trabalho. Mantenho minha vontade em trabalhar em coisas que considero do meu interesse. Reconheço o papel do acaso no nosso trabalho e o que você tem que fazer é buscar se concentrar e decidir para onde ir. Como muitas coisas não dependem só de você, é preciso estar preparado para não perder as oportunidades”.

Fonte: Época Negócios

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