Afinal, as Olimpíadas ajudam ou não a economia?

Afinal, as Olimpíadas ajudam ou não a economia?

Sediar as Olimpíadas faz bem para a economia?

Essa pergunta nem era feita quando os Jogos só aconteciam em países desenvolvidos e eram bem menores do que hoje, mas a coisa mudou na segunda metade do século passado.

Com a televisão, a receita e alcance do evento mudaram de patamar. Além disso, cada vez mais países em desenvolvimento quiseram entrar na disputa – e para isso, precisavam justificar o gasto.

Isso não é simples. Uma coisa é saber se os jogos estimulam a atividade; outra totalmente diferente é se o dinheiro gasto poderia ter tido um destino melhor, especialmente em países que ainda tem carências básicas.

Custo

Para começo de conversa, a própria conta não é fácil de fazer.

Pegue o Rio de Janeiro em 2016: como o real se desvalorizou brutalmente entre o momento de escolha da sede e agora, a estimativa em dólar depende muito de qual cotação você usa.

Em real, o gasto ficou estabelecido em R$ 39 bilhões, mais da metade em infraestrutura – que não entra no cálculo da Universidade de Oxford, que fala US$ 4,6 bilhões (já com 50% de estouro de orçamento, a média histórica das Olimpíadas).

Mas dá para dizer que a expansão do metrô teria sido feita sem a pressão do relógio? Mas sem a pressa, teria custado quase o dobro do estimado? E o dinheiro estadual e federal, também teria fluido de qualquer forma para a cidade?

Outra estimativa, que costuma ser destacada pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, é que mais da metade do dinheiro envolvido é do setor privado. A história é um pouco mais complicada.

“Muito do investimento privado foi feito em troca de grandes concessões financeiras da cidade ou do estado na forma de terra, renúncia fiscal e financiamento a juros baixos. Esses são custos públicos que não são incluídos no Orçamento dos jogos”, diz o economista Andrew Zimbalist, professor no Smith College e autor de “Circus Maximus”, sobre o impacto econômico de grandes eventos esportivos.

A Receita Federal estima uma renúncia fiscal de R$ 3,8 bilhões em arrecadação ao longo de 5 anos sobre tributos que incidiriam sobre itens como troféus, material promocional e bens não duráveis consumidos em atividades esportivas, entre outros.

A manutenção dos equipamentos olímpicos custará aos cofres públicos pelo menos R$ 59 milhões por ano, a maior parte arcada pelo governo federal. Há um longo histórico de equipamentos abandonados após os jogos em várias cidades sede.

Benefícios

“Os estádios vazios em Brasília e Manaus serão seguidos por arenas olímpicas vazias no Rio”, diz Victor Matheson, professor de economia do College of the Holy Cross em Massachusetts, e que acaba de voltar do Rio.

Junto com Robert Baade, ele publicou recentemente no Journal of Economic Perspectives um artigo afirmando que os jogos são uma das empreitadas mais caras e financeiramente arriscadas que uma cidade pode assumir.

Simplesmente não há na literatura acadêmica nenhuma evidência clara de efeito econômico positivo de longo prazo, com uma exceção.

Em 2009, um trabalho publicado por Andrew Rose e Mark Spiegel verificou uma alta de 30% nas exportações de países que sediam as Olimpíadas.

O efeito é “grande, estatisticamente robusto e permanente”, mas há uma pegadinha: os países que tentam, mas não conseguem ser sede também vivem um impulso similar.

A hipótese dos autores é que “o efeito olímpico sobre o comércio pode ser atribuído ao sinal que um país envia quando tenta sediar os Jogos, ao invés do ato em si de sediar o megaevento”.

Antes e depois

E não é isso que os governos alegam quando lançam suas propostas. No final de 2009, quando o Rio ainda era só um candidato, um estudo encomendado pelo Ministério dos Esportes à Fundação Instituto de Administração (FIA) previa impacto de US$ 51 bilhões em recursos e 120 mil novos empregos.

Por que tanta discrepância? Segundo os especialistas, estimativas do tipo tem vícios de origem porque já são contratadas para mostrar benefícios, e há o “efeito leilão” no momento da disputa, com as cidades exagerando números para justificar sua escolha.

Tudo depende do multiplicador escolhido para calcular o efeito concreto de cada real envolvido no evento. Muitos ignoram o “efeito substituição”: não dá para contar todo o dinheiro envolvido como estímulo, por exemplo, já que parte dele acabaria sendo gasto em outras coisas se os Jogos não tivessem acontecido.

O efeito no turismo deve ser visto pelo mesmo prisma. Muitos estrangeiros não viriam se não fosse pelos jogos, mas há quem adie uma viagem já marcado para evitar os custos e congestionamento do evento.

Os supostos benefícios de apresentar a cidade ao mundo também podem sair pela culatra. Para cada cenário paradisíaco da cidade maravilhosa, há uma matéria na mídia internacional sobre zica, criminalidade ou a falsa promessa de despoluir a Baía de Guanabara.

Lado bom

Algo a ser notado é que o efeito substituição pode estar funcionando de forma diferente no Brasil, já que o país vive a situação inédita de sediar os Jogos em meio a uma profunda recessão.

“De um ponto de vista puramente econômico, ter Olimpíadas em meio a uma recessão é positivo e não negativo. Serve como um estímulo de curto prazo para amenizar parte da baixa econômica”, diz Matheson.

Veja o que disse Scott Kirby, presidente da American Airlines, em uma conferência recente com investidores:

“Geralmente as Olimpíadas, Copas e convenções são negativas para as receitas porque os viajantes de negócios simplesmente se afastam (…) Mas nesse caso, o Brasil está tão mal que não há tráfego de negócios, ou quase nada. Então esse ano a Olimpíada será um fator positivo, simplesmente porque o Brasil já caiu tanto antes”.

Há evidência de que os Jogos tenham ajudado o Rio a resistir à crise. O FGV Social divulgou recentemente um estudo mostrando que das 27 capitais e 9 periferias pesquisadas, foi no Rio que a renda individual do trabalho mais cresceu desde 2013.

No período pós anúncio das Olimpíadas, a cidade melhorou mais que a média em praticamente todos os indicadores. A desigualdade nunca esteve tão baixa na cidade na série histórica e não piorou recentemente, na contramão do que tem acontecido no resto do estado e do país em meio à crise.

“São várias evidências de que talvez as Olimpíadas possam ter mantido as rodas da economia carioca e o dinheiro no bolso girando”, diz o economista Marcelo Neri, diretor do centro e ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Se existe, o efeito é realmente pequeno e local. De acordo com uma nota recente do Goldman Sachs, “os investimentos relacionados à Copa e Olimpíadas são simplesmente pequenos demais para gerar um impulso ou dividendo significativo por causa do enorme tamanho da economia brasileira”.

Fonte: Exame

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