Decepção amorosa organizacional: Ela existe?

Decepção amorosa organizacional: Ela existe?

Ana (nome fictício) entrou na empresa Consultoria Y (também fictício) como chão de fábrica, percebendo um salário mínimo. Para ela, àquele era mais um de seus empregos, que ela se propunha em fazer com muito afinco, como sempre fizera em seus outros contratos trabalhistas. Mas Ana não era uma funcionária comum. Ela tinha sonhos de conquistar objetivos profissionais que a vida nunca deu-lhe a chance de conseguir, devido a consequências de escolhas feitas lá atrás. Ela já tinha um histórico de agarrar oportunidades e aprender funções novas. Assim, quando viu uma oportunidade de aprender algo novo na Consultoria Y, ainda que não mudaria muito em seu salário atual, decidiu se entregar. Procurou seu supervisor e disse que, quando surgisse oportunidade, tinha interesse naquela vaga. Sem entender muito a lógica, porque a princípio não parecia que Ana estaria ganhando algo com a mudança para aquela função, o supervisor decidiu aproveitar Ana na sua equipe e deu-lhe o remanejamento. Ela agarrou a oportunidade, buscando conhecer mais do assunto e aperfeiçoar suas habilidades.

Após alguns meses, seu supervisor deixou a empresa de forma repentina. Ele havia se desmotivado com a desvalorização do seu trabalho perante seus chefes e a sobrecarga de trabalho. Ana pensava: “que pessoa ingrata, perder esse emprego”. Outro supervisor assumiu a posição e Ana começou a ver uma oportunidade em um cargo totalmente intangível – o cargo de liderança. Passou a se empenhar ainda mais, estar à disposição do novo supervisor e ser seu braço direito em todas as execuções de tarefas. Ana ganhava confiança e sonhava com uma oportunidade de liderança também.

Até que esta oportunidade chegou! Seu atual supervisor foi dispensado, ele não produzia como a organização esperava e começou a dar sinais frequentes de absenteísmo. Decepcionados com a frustração da antiga promoção, a alta direção decidiu então abrir um processo seletivo interno. Entusiasmados em oferecer essa oportunidade a todos, fizeram uma reunião e comunicaram essa novidade. Os olhos de Ana brilharam! Finalmente ela tinha a oportunidade de mostrar à empresa que era a funcionária certa para o que eles precisavam. Mas, para a surpresa dos diretores, somente Ana se inscreveu no processo. Nenhum dos outros funcionários quiseram o cargo de supervisor naquela empresa e, mesmo assim, a empresa decidiu seguir em frente e enviou apenas Ana para a agência de recrutamento e seleção. Mas, para surpresa de todos talvez, a Ana foi aprovada e assumiu o cargo de supervisora.

Os primeiros meses como supervisora foram desafiadores para Ana. Ela entendeu a forte pressão que aquele cargo sofria e as situações humilhantes que deveria suportar com seus chefes. Organização, atenção aos detalhes e resolução de problemas foram algumas das habilidades que ela não tinha e teve que desenvolver. Passou a ler livros de autoajuda para líderes e buscar conhecimento com amigos mais maduros profissionalmente. E assim, foi conquistando a confiança da alta direção da empresa, que passou a compartilhar seus segredos e decisões.

Ana decidiu sonhar também os sonhos daquela empresa. Se matriculou em um curso técnico da área (que era o que podia pagar naquele momento) e, tudo que aprendia, trazia para a empresa. Fazia treinamentos, projetos motivacionais, fluxogramas, etc. Ana passou a sonhar ainda mais, agora ela queria o cargo de coordenadora, que nem existia. Fez uma proposta e relatou exatamente as necessidades da empresa e de que forma ela poderia cobrir as lacunas e guardou para o dia certo. E esse dia chegou.

Um dia a diretoria comentou com a Ana exatamente as necessidades de tudo que Ana já havia desenhado, mas o objetivo deles era uma outra contratação. Foi então que Ana apresentou o projeto juntamente com seu desejo de abraçar aquela causa. Eles avaliaram e decidiram promover Ana à coordenadora. Apesar de não ter aumento salarial e nem benefícios, prometeram à Ana um cargo futuro de gerência caso ela mostrasse resultados, e Ana via aquela oportunidade como uma promoção na sua carreira.

Ana assumiu o novo desafio já a todo vapor. Os setores estavam totalmente desorganizados. Além disso, existiam várias situações que poderiam acarretar em perdas financeiras, como débitos de clientes e processos trabalhistas, mas Ana fez um projeto e resolveu cada uma daquelas áreas. Levava trabalho para casa a fim de conseguir resultados rápidos, pois haviam outras áreas para cuidar, além de estar 24h à disposição da equipe, dos donos e dos clientes. E de repente, o curso técnico já não era mais suficiente para aquela necessidade. Ela decidiu fazer faculdade e continuou trazendo ainda mais informação e conteúdo para a empresa. Assumiu desafios maiores, era representante da alta direção e referência para funcionários, clientes e fornecedores como o braço direito dos donos. Ela se sentia feliz e realizada em provar que sim, era a funcionária certa para o que a empresa precisava.

Até que a empresa decidiu-se fundir com outra. No dia que Ana soube através da diretoria, seus olhos brilharam! Sim, finalmente chegou o tão sonhado dia de alcançar voos ainda mais altos: de chegar à gerência.

No processo de integração das equipes, Ana esteve totalmente a frente. Treinava os colaboradores ao novo processo, atendia todos os diretores em suas particularidades, atendia aos clientes nas suas diversas reclamações sobre o novo processo, lidava com os problemas enfrentados com os fornecedores, etc. Ana entendia que fusão é igual mudança de casa, você tira tudo do lugar para organizar depois. Neste momento de inclusão de processos, Ana passou a perceber diversas situações que poderiam trazer problemas futuros à empresa, e passou a sinalizar isso como sempre fez desde que assumiu a função de chefia e foi estimulada pela direção a compartilhar suas ideias. Mas o que Ana estava sinalizando passou a ser visto pela diretoria como uma resistência ao processo.

Ana percebeu que novamente estavam abrindo precedentes para os mesmos problemas encontrados por ela no começo da sua gestão. Desorganização de processos, exposição para problemas financeiros e influência negativa no clima organizacional foram alguns pontos sinalizados por Ana. Mas essa atitude de Ana agora poderia interferir nos negócios, o momento da Ana era executar tarefas e guardar as opiniões para ela. Outras opiniões eram mais interessantes economicamente falando.
Mesmo com o clima ruim, Ana ainda tinha esperanças no cargo de gerência prometido na sua promoção como coordenadora, afinal, não havia ali ninguém que tinha lutado mais pela empresa, acreditado em seus sonhos, vendido sua ideia para os empregados e custeado financeiramente em conhecimento para investir na empresa, do que ela. E foi então que na apresentação do novo organograma, além de outros funcionários terem ocupado cargos de gerência, Ana perdeu algumas autonomias sem nem sequer ter sido previamente informada.

Ana começou a se sentir desestimulada. A visão e missão daquela empresa, que ela defendeu com tanta dedicação por anos, não era mais realidade na sua vida. Não conseguia falar, porque era vista como um funcionário com problemas emocionais. Como passou a se isolar e decidiu ser uma mera executora de tarefas, a diretoria começou a fazer insinuações para Ana, que ela tinha problemas com a nova equipe, que não era mais uma pessoa confiável e que deveria guardar suas opiniões para si. Ora, a empresa cresceu agora, quem é você na “fila do pão”, Ana?

Ana se sentiu traída. Quando a empresa não tinha ninguém para exercer a função ela estava ali, fazendo o papel de dois, três, quatro funcionários. Quando a empresa não tinha recursos, ela trouxe ferramentas para, de alguma forma, contribuir com o desempenho dos colaboradores e fornecer resultados produtivos. Mas agora, não havia mais motivo para estar ali. Aquela empresa não a merecia. Não merecia sua garra, sua persistência, sua força de vontade. Ana continuava se sentindo a funcionária certa, mas a empresa não era a certa para ela. Buscou novos horizontes e, então, ela partiu.

Desabafos como esse estão cada vez mais comuns. Funcionários que sentem falta de reconhecimento pelos seus líderes e empresas que se sentem desvalorizadas pela oportunidade mal aproveitada de seus colaboradores. Estamos numa era onde nunca tivemos tanta oportunidade de se comunicar, mas também nunca tivemos tanta falta de comunicação. As pessoas estão mais abertas a ouvir o que elas querem e não a entender a real situação e decidir fazer algo a respeito.

Esse relato nos leva a refletir como empregados, organizações e líderes podem perder a pessoa certa. A desilusão amorosa organizacional existe, e você pode lutar quando valer a pena: basta você se permitir ver.

Fonte: rhportal

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