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Felicidade no trabalho: as pesquisas que ignoramos

Felicidade no trabalho: as pesquisas que ignoramos

Recentemente, participamos de workshops motivacionais em nossos locais de trabalho. Em ambos os eventos, pregava-se o evangelho da felicidade. Em um deles, um palestrante explicou que a felicidade pode nos tornar mais saudáveis, gentis e produtivos e aumentar ainda mais as chances de uma promoção.

O outro workshop exigia que fizéssemos uma dança esquisita que, supostamente, nos encheria de alegria. Um de nós acabou fugindo e se escondendo no banheiro mais próximo.

Desde o dia em que um grupo de cientistas decidiu acender e apagar as luzes da fábrica da Hawthorne, na década de 1920, estudiosos e executivos tornaram-se obcecados pelo aumento da produtividade do trabalhador. Em particular, a melhora da produtividade por meio da felicidade parece ter-se popularizado mais recentemente. As empresas gastam com coaches de felicidade, atividades de team building, dinâmicas de grupo, consultores medidores da alegria e CHOs (Chief Happiness Officers, diretores de departamento de felicidade; sim, é possível encontrá-los no Google). Essas funções e cargos podem parecer divertidos ou até bizarros, mas as empresas os têm levado a sério. E deveriam?

Ao fazer uma pesquisa mais aprofundada – como fizemos após o episódio da dança –, nota-se que ainda não está claro se incentivar a felicidade no trabalho é sempre uma boa ideia. É claro que certas evidências sugerem que o funcionário feliz está menos propenso a deixar seu emprego, tende a satisfazer melhor o cliente, é mais confiável e costuma vestir a camisa da empresa. Entretanto, outras descobertas indicam que algumas das ideias mais aclamadas sobre a importância da felicidade não passam de mitos.

Para começar, não sabemos ao certo o que é a felicidade ou como medi-la. Mensurá-la é tão difícil quanto determinar a temperatura da alma ou a cor exata do amor. Como mostra Darrin M. McMahon em seu elucidativo estudo Felicidade: uma história, desde o século 6 a.C, quando o rei Creso disse jocosamente que “aquele que vive não é feliz”, temos visto esse duvidoso conceito ser considerado uma aproximação de vários outros, como prazer, alegria, plenitude e contentamento. Como disse Samuel Johnson, a felicidade instantânea só é possível quando se está bêbado. Já para Jean-Jacques Rousseau, a felicidade era estar num barco sem rumo, sentindo-se um deus (o que não é exatamente a imagem que se tem de produtividade). Há, ainda, outras definições de felicidade que não são nem mais, nem menos plausíveis que as de Rousseau ou de Johnson.

E o simples fato de hoje existirem tecnologias mais avançadas não significa, de forma alguma, que estamos mais próximos de chegar a uma definição, como nos recorda Will Davies. Em seu novo livro The happiness industry, o autor conclui que, embora tenhamos desenvolvido técnicas mais avançadas para mensurar emoções e prever comportamentos, também adotamos noções cada vez mais simplistas sobre o que significa ser humano, quanto mais o que significa buscar felicidade. Por exemplo, um mapeamento cerebral com pontos luminosos pode parecer indicar algo concreto sobre um sentimento vago, quando, na verdade, não o faz.

Nem sempre a felicidade leva ao aumento da produtividade. Certa linha de pesquisa mostra resultados contraditórios sobre a relação entre felicidade – normalmente definida como “satisfação profissional” – e produtividade. Um estudo realizado em supermercados britânicos sugere, inclusive, uma correlação negativa entre satisfação profissional e produtividade empresarial: quanto mais infelizes estavam os funcionários, maior era o lucro. Certamente, há outros estudos que indicam o oposto, sustentando a existência de uma ligação entre conteúdo emocional e o trabalho e produtividade. Contudo, mesmo estes estudos, quando considerados em sua totalidade, demonstram uma correlação relativamente fraca.

A felicidade pode ser exaustiva. Buscar felicidade pode não ser totalmente eficaz, mas tampouco faz mal, certo? Errado. Desde o século 18, tem-se destacado como reivindicar felicidade traz um grande peso, um dever que nunca poderá ser perfeitamente cumprido. Aliás, focar na felicidade pode nos tornar menos felizes.

É o que confirma um recente estudo na área da psicologia. Pesquisadores pediram que os participantes assistissem a um vídeo que os deixaria felizes de uma forma geral, o de um famoso esqueitista ganhando uma medalha. Mas antes pediram que metade do grupo lesse uma declaração sobre a importância da felicidade. A outra metade não fez essa leitura. Para surpresa dos pesquisadores, aqueles que haviam lido o texto, na verdade, ficaram menos felizes depois de verem o vídeo. Basicamente, quando a felicidade se torna um dever, e este não é cumprido, as pessoas podem se sentir piores, o que é um grande problema nos tempos atuais, quando se sugere que a felicidade é uma obrigação moral. Como afirma o filósofo francês Pascal Bruckner, “a infelicidade não diz respeito apenas a ela mesma, mas, pior ainda, à incapacidade de ser feliz”.

Nem sempre ela ajuda a enfrentar o dia de trabalho. Quem trabalhou na linha de frente do atendimento ao cliente, como num call center ou num restaurante de fast food, sabe que ser alegre não é uma opção. É obrigatório. E, por mais cansativo que possa ser, faz certo sentido quando se está frente ao cliente.

Hoje, porém, a alegria também tem sido exigida de muitos funcionários que não lidam diretamente com o consumidor, o que pode trazer consequências inesperadas. Um estudo constatou que pessoas bem-humoradas tinham mais dificuldade de identificar mentiras e fraudes que as mal-humoradas. Outra pesquisa demonstrou que indivíduos irritados negociam melhor que os felizes. Parece, portanto, que ser feliz o tempo todo pode não ser bom em todos os aspectos profissionais, ou em trabalhos que exigem determinadas habilidades. Na prática, em alguns casos, a felicidade pode até piorar o desempenho.

Ela pode afetar a relação com o chefe. Quem acredita que a felicidade está no trabalho pode acabar confundindo o chefe com o cônjuge ou algum parente. Em estudo realizado em uma agência de comunicação, Susanne Ekmann verificou que quem buscava felicidade no trabalho, muitas vezes, tornava-se carente. As pessoas desejavam receber constante reconhecimento e afirmação de seus gestores. E, quando não obtinham a resposta esperada (quase sempre), sentiam-se negligenciadas e começavam a ter reações exageradas. Mesmo pequenos contratempos eram interpretados como prova clara de rejeição por parte do chefe. Portanto, sob vários aspectos, esperar que o chefe traga felicidade pode nos tornar emocionalmente vulneráveis.

Também pode prejudicar o relacionamento com amigos e família. No livro O amor nos tempos do capitalismo, Eva Illouz observou um estranho efeito colateral de se tentar ser mais afetivo no ambiente de trabalho: as pessoas começaram a encarar a vida pessoal como uma tarefa profissional. Os entrevistados enxergavam sua vida pessoal como aspectos que deveriam ser cuidadosamente administrados por meio de uma ampla gama de ferramentas e técnicas obtidas com a vida profissional. Como resultado, a vida no lar havia se tornado cada vez mais fria e calculada. Logo, não era à toa que muitos preferiam passar mais tempo no trabalho do que em casa.

Com isso, perder o emprego pode ser muito mais avassalador. Quem busca felicidade e sentido para a vida no ambiente de trabalho torna-se perigosamente dependente dele. Em outra pesquisa, Richard Sennett notou que os indivíduos que viam seu empregador como uma importante fonte de significado pessoal eram aqueles que ficavam mais arrasados quando eram demitidos. Junto com o emprego, não perdiam apenas o salário, mas também a promessa de felicidade. Sendo assim, quem enxerga no trabalho uma grande fonte de felicidade fica emocionalmente vulnerável na hora das mudanças, o que, em tempos de constantes reestruturações empresariais, pode ser perigoso.

A felicidade pode nos tornar egoístas. Ser feliz nos faz pessoas melhores, certo? Não exatamente, segundo um outro interessante estudo. Os participantes receberam bilhetes de loteria e deviam escolher quantos bilhetes dariam a outras pessoas e quantos queriam guardar para si. Os que estavam de bom humor ficaram com mais bilhetes no bolso. Portanto, pelo menos em certos contextos, ser feliz pode não significar ser mais generoso. Aliás, pode significar o contrário.

A felicidade também pode trazer solidão. Em outra pesquisa, após pedirem que os participantes fizessem um diário detalhado durante duas semanas, psicólogos descobriram que quem mais valorizava a felicidade também se sentia mais só. Ao que parece, dedicar-se demais à busca da felicidade pode ocasionar um sentimento de falta de ligação com as outras pessoas.

Então, por que, apesar das evidências, continuamos presos à crença de que a felicidade pode melhorar o trabalho? A resposta, segundo outra pesquisa, está nas aparências e na ideologia. Felicidade é um conceito conveniente que parece ótimo no papel (aparências). Mas também é uma ideia que ajuda a fugir de questões mais sérias no trabalho, como conflitos e políticas de escritório (ideologia).

Ao acreditarmos que funcionários felizes são melhores, podemos varrer um número maior de temas desagradáveis para debaixo do tapete, principalmente já que a felicidade é frequentemente vista como uma escolha. É um modo conveniente de lidar com atitudes negativas, pessoas desmancha-prazeres e insatisfeitas e outros aspectos indesejáveis da vida na empresa. Apelar para a felicidade, com toda sua ambiguidade, é uma forma excelente de se livrar de decisões controversas, como demissões. Como destaca Barbara Ehrenreich no livro Bright-sided, mensagens positivas sobre felicidade mostraram-se especialmente populares em tempos de crise e demissões em massa.

Com todos esses possíveis problemas, acreditamos que é o caso de repensarmos a expectativa de que o trabalho sempre deve trazer felicidade. Isso pode ser exaustivo, causar reações exageradas, tirar a importância da vida pessoal, aumentar a vulnerabilidade e nos tornar mais ingênuos, egoístas e solitários. Ainda mais estarrecedor é que buscar deliberadamente a felicidade pode acabar roubando até mesmo a alegria que sentimos com as coisas realmente boas da vida.

Na verdade, o trabalho, assim como todos os outros elementos da vida, pode nos fazer sentir as mais variadas emoções. Se você acha que o seu trabalho é deprimente e sem sentido, talvez ele realmente seja. Fingir que não é pode só piorar as coisas. Obviamente, a felicidade é algo maravilhoso, mas não pode ser criada pelo nosso simples desejo. E, talvez, quanto menos buscarmos ativamente a felicidade no trabalho, mais alegria possamos encontrar nele – uma alegria espontânea e prazerosa, e não artificial e opressora. E, ainda melhor, teremos mais sensatez para lidar com o trabalho. Para vê-lo como realmente é, e não como nós – executivos, funcionários ou mestres da dança motivacional – fingimos que é.

Fonte: harvard business review

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