O ano é 1981, e Chris Gardner (Will Smith, soberbo), está tentando sobreviver vendendo de porta em porta desengonçadas máquinas hospitalares (scanners ósseos) em São Francisco. Carregar as pesadas máquinas para cima e para baixo todos os dias é uma chateação, mas ele gosta de se conectar com as pessoas. Apesar de se considerar um bom vendedor, ele acredita que seu destino consiste em uma carreira profissional melhor, ainda que no momento, ele não faça ideia do que fazer para mudar sua infeliz trajetória profissional. Sua esposa, Linda (Thandie Newton, da série Westworld), trabalha em dois empregos para ajudar nas contas, e mesmo assim o casal está com o aluguel e as contas atrasadas. Seu filho de cinco anos de idade, Christopher (Jaden Smith, filho de Will na vida real), passa o dia numa creche improvisada onde na parede externa a palavra “Felicidade” (Happiness), está escrita errada (Happyness), o que incomoda Chris, já que ele está convencido de que estes pequenos detalhes fazem toda a diferença na vida.

Poucas vezes um filme me emocionou tanto como este À Procura da Felicidade(The Pursuit of Happyness, EUA, 2006). Quando lançado nos cinemas, o filme dividiu a crítica; Alguns consideraram o filme uma típica fábula hollywoodiana com final feliz; outros (eu incluído), considero a produção uma tocante história sobre a superação humana e uma dolorosa jornada de um pai em busca do melhor para seu filho. Se você não se identifica com este último tema citado, então meu amigo, você tem sérios problemas. Não há como não se sentir abalado com a constante pressão financeira que se abate sobre Chris e sua família. A carga é tão pesada que Linda não consegue lidar com ela, e a mulher acaba aceitando um emprego no restaurante de um parente, em Nova York. E apesar de seu marido ser uma decepção para ela, ela ainda carrega a confiança de que ele encontrará uma maneira de cuidar do filho do casal, e então ela deixa o pequeno Christopher sob os cuidados dele.

A persistência de Chris é recompensada quando ele é escolhido para um programa de estágio em uma prestigiada firma de corretagem, após impressionar um dos sócios ao montar um cubo mágico em tempo recorde na frente do homem (o brinquedo era uma febre naquele ano). É óbvio que Chris tem um talento com números além de sua predisposição para as vendas, o que faz dele um candidato perfeito para a posição que sonha um dia ocupar na empresa. Mas existem pelo menos dois tremendos obstáculos em seu caminho: Primeiro, o estágio não paga nenhum salário ou ajuda de custo; Segundo, apenas um dos vinte candidatos (entre eles Chris), será eventualmente contratado. Enquanto batalha como nunca para conseguir seu lugar na firma, sua situação financeira está à beira do colapso: Um de seus scanners (sua única fonte de renda até o fim do programa de estágio) é roubado, e ele e seu filho são despejados do apartamento onde vivem.

Na cena mais dura do filme, Chris e o garoto acabam tendo de passar a noite no banheiro do metrô, e confesso que essa sequência me marcou profundamente, não só por sua cruel e triste natureza, mas pela maneira com que transmite uma tremendamente incômoda sensação de desalento, de que as coisas não têm como melhorar para o sofrido protagonista. Elas eventualmente melhoram, mas ainda assim leva um tempo para a narrativa efetivamente retirar o peso das costas do público e de seu personagem central. Certas passagens de À Procura da Felicidade carregam um aspecto implacável.

À Procura da Felicidade é baseado na história verídica que retrata a luta de Chris Gardner para conquistar sua parcela do sonho americano. Dirigido pelo italiano Gabriele Muccino (de Sete Vidas, outro bom drama estrelado por Smith), o filme exagera um pouco em mostrar Gardner correndo como um louco durante boa parte do filme, seja fugindo de um taxista enfurecido ou perseguindo o ladrão de seu scanner, que acredita que o objeto seja na verdade uma máquina do tempo. Contudo, o filme é uma verdadeira powerhouse emocional, com momentos dramáticos que ressoam na alma do espectador.

A produção retrata a excruciante jornada de um batalhador, que revela-se um extraordinário pai solteiro que nutre amor e ternura por seu filho de maneira impressionante. Numa das cenas mais lembradas do filme, Chris conversa com seu filho sobre a vida e o que esperar dela, e quando o garoto argumenta sobre seguir o seu sonho, Chris à princípio refuta a ideia do menino, mas depois profere a sentença mais significante do filme, que reflete o próprio momento do protagonista, um homem cujos sonhos, mesmo os mais simples, parecem absurdamente distantes. Trata-se de uma cena que ao longo dos anos foi banalizada como um clichê, e realmente ela até se estabelece como um, mas dentro do contexto do filme funciona como uma poderosa ferramenta de reflexão.

O roteiro de Steve Conrad (do drama Extraordinário, 2017), castiga bastante o protagonista. Nunca dá para saber o quanto da narrativa foi alterada para efeitos dramáticos, mas creio que Gardner realmente comeu o pão que o diabo amassou para conseguir seu lugar ao sol. Gardner acredita no capitalismo, e ele é um profissional extremamente competitivo, mesmo sob as mais difíceis circunstâncias. Por consequência, não resta outra escolha para o público a não ser torcer por ele à medida em que ele supera um obstáculo atrás do outro. Certamente o amor e a confiança de seu filho o ajuda ao longo do caminho, talvez mais do que ele imaginava no momento, mas de qualquer forma, o calvário enfrentado por Gardner não foi brincadeira.

Muito pode ser dito de negativo sobre o filme, especialmente se o espectador for um ser-humano mais amargo do que o comum. De fato, À Procura da Felicidade quer que acreditemos que qualquer pessoa pode ser bem sucedida apenas na base da dedicação. Isso talvez fosse verdade uns 60 anos atrás, mas sabemos que tal pensamento não se aplica mais hoje em dia, uma vez que a fenda que separa os ricos dos pobres se tornou um abismo. Mas é impossível não reconhecer o valor e a força da jornada de superação de Chris Gardner, e é ainda mais improvável que alguém não se emocione com ela. À Procura da Felicidade traz uma das conclusões mais bonitas e inspiradoras da história do cinema, pois quando o sócio-majoritário do estágio de Chris pede à ele que vista uma camisa nova para trabalhar amanhã, tal frase ganha um peso muito maior, que imediatamente remete à todos os erros e acertos do protagonista até aquele momento. Cada pequena vitória e cada dolorosa derrota, culminam em uma reação humana e verdadeira, que coroa a atuação magistral de Smith no papel de um homem cuja resiliência foi maior do que qualquer adversidade.

No mercado de trabalho e no mundo corporativo, a resiliência é uma virtude indispensável no enfrentamento de desafios. O indivíduo resiliente aprende a aceitar incondicionalmente a realidade como ela é, sem fantasias ou ilusões de que uma solução de última hora aparecerá em seu caminho quando as coisas ficarem difíceis. O resiliente valoriza a vida e todos os seus aspectos, bons e ruins, e carrega consigo uma incrível capacidade de improvisação e jogo de cintura. Pessoas resilientes, como o Chris Gardner deste À Procura da Felicidade, enfrentam a realidade com firmeza, aprendem a improvisar soluções, e criam um significado para seu sofrimento, ao invés de abraçar o desespero decorrente de suas más escolhas.

À Procura da Felicidade está disponível para o mercado de home-vídeo, canais por assinatura e TV aberta.

Fonte: administradores.com.br

Nenhum Comentário »

No comments yet.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URL

Leave a comment