Camille e Pierre se conheceram quando tinham 40 e poucos anos, depois que o casamento de ambos havia terminado. Os dois estavam extremamente envolvidos com a própria carreira e com seu novo relacionamento. Camille, formada em contabilidade, sentia-se pressionada pelo ex-marido para desacelerar seu progresso numa sociedade na empresa. Pierre, gerente de produção de uma companhia automotiva, foi enredado num divórcio amargo, pois a esposa desistira de sua carreira para acomodar as mudanças geográficas que os compromissos profissionais do marido exigiam. (Como em outros perfis que descreverei neste artigo, os nomes são fictícios.) Frustrados com as experiências do passado, eles concordaram em colocar ambas as carreiras em pé de igualdade. Inicialmente, seguiram tranquilas, mas, dois anos depois, Camille começou a sentir-se presa na trajetória profissional. Ela percebeu que o motivo de sua escolha era simplesmente “gente esperta faz assim”.

Ciente do pacto que haviam feito, Pierre ouviu calmamente as dúvidas de Camille e encorajou-a a pensar em alternativas. Porém, à medida que os meses passavam, ele começou a sentir-se oprimido. Ele conciliava os momentos de apoio emocional que dava a Camille, com a administração da complexa logística familiar (ambos tinham filhos de casamentos anteriores) e com o cumprimento à altura das exigências profissionais. Pierre começou a questionar o rumo de sua própria carreira e considerou alternativas para que os dois pudessem administrar uma possível mudança de curso. Eles não podiam dar-se o luxo de tirar licença no trabalho nem demorar muito tempo refletindo e simultaneamente manter a família e o relacionamento a salvo. Frustrados e cansados, os dois se perguntaram como a vida de cada um poderia continuar a ser importante e satisfatória.

Casais com fonte de renda separada estão em alta. De acordo com a Pew Research, em 63% dos casais com filhos nos Estados Unidos, por exemplo, os dois cônjuges trabalham (o número é ligeiramente mais alto na União Europeia). Muitos são casais com carreiras paralelas: os dois têm alto nível de instrução, trabalham em tempo integral em atividades extremamente exigentes ou em cargo gerencial e estão cada um em trajetória ascendente na carreira. Para esses casais, como para Pierre e Camille, o trabalho é uma fonte essencial de identidade e um canal básico de ambição. Pesquisas sociológicas mostram inúmeras evidências de que quando ambos se dedicam ao trabalho e à vida doméstica, eles colhem benefícios como maior liberdade econômica, relacionamento mais satisfatório e menor probabilidade de divórcio que a média.

No entanto, a vida profissional e a vida pessoal estão fortemente entrelaçadas, o que impõe dificuldades únicas. Em caso de transferência de cidade, por exemplo, como decidem? Qual dos dois não teria problema em fazer uma arriscada mudança na profissão e em que circunstâncias? Qual deles sairá mais cedo do trabalho para pegar as crianças na escola? Como conseguem dedicar total atenção aos compromissos familiares — e um com o outro — e ao mesmo tempo exercer funções superexigentes? E quando um deles decide se reinventar profissionalmente, que significa isso para o outro? Eles precisam discutir estas questões de forma que ambos sejam felizes no casamento e prosperem no trabalho. Se não conseguirem, virão os arrependimentos e desequilíbrios que ameaçam a carreira de um e de outro, prejudicam o relacionamento, ou as duas coisas.

Muitos desses desafios são bem orquestrados, e eu expliquei anteriormente nesta revista como as empresas podem adaptar suas estratégias de talentos para minimizar alguns deles (“Gestão de talento e casais que conciliam a vida profissional”, HBRBR julho de 2108). Mas para os casais há pouca orientação. A maioria dos conselhos trata as grandes decisões de carreira como se a pessoa estivesse em voo solo, sem considerar cônjuge, filhos ou pais idosos. Quando os conselhos são para os casais, o foco é o relacionamento em si, e não seu potencial de matar sonhos profissionais. Procura-se resolver a questão de equilibrar determinadas concessões, como carreira versus família, ou de priorizar viagens de trabalho do marido e da esposa. O que os casais precisam é de uma abordagem abrangente para gerenciar os conflitos entre os compromissos e as aspirações.

Meu próprio casamento, em que eu e meu marido temos cada qual uma carreira a administrar, e minha percepção de que há pouca pesquisa acadêmica sistemática nesta área motivaram seis anos de investigação da vida de mais de cem casais na mesma situação, o que resultou no meu livro Couples that work, a ser publicado em breve. Estudei pessoas do mundo todo, de 35 a 65 anos, das mais variadas ocupações: executivos de corporações, empreendedores, funcionários de organizações sem fins lucrativos (veja o quadro “Sobre a pesquisa”). Minha pesquisa revelou que casais que conciliam duas carreiras independentes transpõem os obstáculos abordando diretamente forças sociais e psicológicas profundas — como disputas por poder e controle, esperanças pessoais, medos e perdas, suposições e expectativas do papel que cada um deve desempenhar na vida do outro, e o significado do bom relacionamento ou da carreira bem-sucedida.

Descobri que normalmente ocorrem três pontos de transição durante a vida profissional e familiar de casais com esse estilo de vida quando tais forças se impõem. Durante essas transições alguns casais criam um meio de prosperar no amor e no trabalho, e outros são atormentados por conflitos e arrependimentos. Se entenderem cada transição, fizerem um ao outro as perguntas certas e souberem as armadilhas a evitar, eles se sairão mais fortes e satisfeitos na vida em comum e na profissão.

Transição 1
TRABALHAR EM DUPLA

Quando Jamal e Emily se conheceram, perto dos 30 anos, fazer concessões era a última coisa que pensavam. Eles estavam cheios de energia, otimistas e determinados a viver a vida plenamente. Jamal, gestor de projeto de empresa de engenharia civil, viajava continuamente a trabalho e assumia a liderança de projetos de alta complexidade. Emily, que trabalhava em empresa de confecções, acabara de ser promovida à sua primeira função de gestão. Eles se viam principalmente nos fins de semana, quando faziam muitas caminhadas ao ar livre. Eles casaram 18 meses depois do primeiro encontro.

Então, no intervalo de três meses, o mundo deles mudou drasticamente. Quando Emily ficou grávida do primeiro filho, o chefe de Jamal pediu-lhe que liderasse um grande projeto de infraestrutura no México. Jamal concordou em passar três semanas por mês na Cidade do México. Se Jamal atribuísse parte de seu polpudo salário para o pagamento dos cuidados adicionais com a criança, Emily poderia continuar a trabalhar em Houston, onde eles moravam. Mas quando nasceu a filha Aisha, duas semanas antes do previsto, Jamal ficou preso no aeroporto da Cidade do México aguardando o voo de volta. Emily, que gerenciava sozinha Aisha, o trabalho e a casa, logo descobriu que os cuidados adicionais para a filha não eram suficientes. Ela se sentiu sobrecarregada e desvalorizada. Jamal estava exausto com as incansáveis viagens e o estresse do novo projeto gigantesco. Sentia-se isolado, incompetente e culpado.

Depois de muita discussão, eles chegaram a um acordo sobre o que acreditavam ser uma solução prática: como Jamal ganhava mais, Emily assumiu um projeto menor, possível de administrar remotamente, e se mudou com Aisha para o México. Mas ela se sentia desconectada do escritório central da empresa, foi preterida numa promoção e seu descontentamento com o acordo foi aumentando. Quando o chefe de Jamal começou a falar de sua próxima atribuição, a situação piorou.

A primeira transição que esses casais precisam atravessar surge, muitas vezes, como resposta ao primeiro grande acontecimento familiar para ambos — em geral uma grande oportunidade profissional, o nascimento de um filho ou a fusão de famílias de relacionamentos anteriores. Para se adaptarem, os dois precisam negociar as prioridades: vida profissional e compromissos familiares. Fazer isso construtivamente requer uma mudança de curso subliminar: a vida de cada um, com carreira profissional independente, terá de se transformar numa vida a dois com interdependência de ambas as carreiras.

Minha pesquisa mostra duas armadilhas comuns nos casais que negociam a travessia da primeira transição:

Concentrar-se exclusivamente na prática. Na primeira transição em particular, os casais geralmente procuram soluções lógicas para suas dificuldades, como Jamal e Emily fizeram quando entraram em acordo quanto aos cuidados adicionais para a filha e negociaram o número de fins de semana em que Jamal estaria em casa. Essa alternativa é compreensível — tais problemas são tangíveis —, mas ela prolonga a disputa, porque as tensões sociais e psicológicas subliminares são obscuras e provocam ansiedade.

Em vez de simplesmente negociarem cronogramas e listas de coisas a fazer, os casais precisam entender, compartilhar e discutir emoções, valores e medos que permeiam suas decisões. Falar sobre sentimentos pode ajudar a administrar e mitigar os problemas.

Basear as decisões principalmente em dinheiro. Muitos casais se concentram no poder econômico quando decidem onde morar, a carreira a priorizar, e qual dos dois arcará com a maior parte dos cuidados com os filhos. Mas, por mais delicado que isso possa ser (e, às vezes, inevitável), as decisões geralmente acabam conflitando com valores e desejos.

Poucas pessoas priorizam os resultados financeiros. Profissionalmente elas são motivadas também pelo aprendizado contínuo e pelas responsabilidades a elas atribuídas. Fora do trabalho, querem dedicar-se aos filhos e aos interesses pessoais. Os casais podem ser atraídos por determinado local em virtude da proximidade com outros familiares, da qualidade de vida e do forte sentido de comunidade do local. Basear a decisão de mudar para o México no salário mais alto de Jamal significa ignorar seus outros interesses e os de Emily, o que alimenta o descontentamento.

Os casais bem-sucedidos discutem suas bases e a estrutura de seu caminho futuro juntos. Primeiro, precisam chegar a um acordo sobre os aspectos centrais do relacionamento: valores, limites e medos (veja o quadro “Um guia para contrato de casal”). Negociar e descobrir pontos em comum nessas áreas os ajuda a tomar decisões difíceis porque eles podem concordar com os critérios antecipadamente. É importante dar este passo juntos. Casais que adotam este critério fazem escolhas abertas e em conjunto, não implicitamente e não um pelo outro. Os casais estudados por mim que nunca abordaram seus critérios centrais se debateram muito nas transições posteriores, porque esses critérios nunca desaparecem.

Depois, os casais precisam discutir a priorização de ambas as carreiras e a divisão dos compromissos familiares. Esforçar-se para chegar aos 50/50 nem sempre é a melhor opção. Nenhum dos dois precisa dar prioridade constante à carreira do outro.

São três os modelos básicos a considerar: (1) No modelo primário-secundário, a carreira de um dos cônjuges tem prioridade sobre a do outro pelo critério de tempo despendido por cada um na vida profissional. A pessoa primária dedica mais tempo ao trabalho e menos à família, e seus compromissos profissionais (e requistos geográficos) geralmente vêm antes da pessoa secundária. (2) No modelo de revezamento, eles concordam em trocar periodicamente a posição de primário e a de secundário. (3) No duploprimário, dois primários fazem contínuas conciliações de carreira.Minha pesquisa mostra que os casais podem se sentir realizados na carreira e no relacionamento em qualquer um dos modelos, desde que se alinhem com seus valores e desde que eles discutam francamente suas opções e concordem de forma explícita. Casais que seguem a terceira opção geralmente são os mais bem-sucedidos, embora ela seja, sem dúvida, a mais difícil, exatamente porque eles são forçados a administrar conflitos com mais frequência.

Para superar o obstáculo, Emily e Jamal finalmente discutiram o que realmente era importante para eles, além do sucesso financeiro: a opção de cada um pela carreira que escolheu; a proximidade com a natureza; e um lar estável para Aisha, de cuja criação eles pudessem participar ativamente. Eles admitiram seus medos de ficar separados, e entraram em acordo a propósito de uma grande restrição: eles viveriam na mesma cidade e limitariam as viagens de trabalho a 25% do tempo. Concordaram também em estabelecer limites geográficos em torno da América do Norte, e Jamal sugeriu que os dois desenhassem círculos num mapa em torno das cidades onde acreditavam ser possível formar um lar e ter duas carreiras. As conversas e o exercício dos mapas finalmente lhes permitiram resolver a questão — e recomeçar em Atlanta, onde seguiriam o modelo duplo primário. Três anos depois, eles estão progredindo profissionalmente, estão felizes com sua vida familiar e esperam o segundo filho.

Transição 2
REINVENTAR-SE

Teorias psicológicas confirmam que muitas pessoas no início da vida seguem trajetória pessoal e profissional de acordo com as expectativas dos pais, amigos e colegas e da sociedade. Já na meia-idade muitas têm a necessidade premente de individualização, de romper amarras para se libertar dessas expectativas e tornarem-se protagonistas de sua própria vida. Geralmente isso acontece por volta dos 40 anos, independentemente de seu tipo de relacionamento, e faz parte de um processo coloquialmente conhecido como crise da meia-idade.

A tendência hoje é considerar a crise da meia-idade do ponto de vista sobretudo pessoal (o marido deixa a esposa, por exemplo, e compra um carro esportivo). Mas, nos casais em que cada um tem sua carreira, o foco fixo no sucesso profissional significa que o passado profissional do outro é também analisado. A combinação de crise pessoal com crise profissional forma a base da segunda transição. Camille e Pierre, cuja história foi apresentada no início do artigo, atravessaram essa transição.

À medida que cada um se debate com a própria redefinição, muitas vezes os dois esbarram em acordos feitos há tempos, na identidade, na carreira individual e no relacionamento que construíram juntos. Alguns desses acordos — em que a carreira tem precedência, por exemplo — talvez precisem ser reconsiderados para permitir que um cônjuge saia do emprego e busque alternativas. Pode ser doloroso questionar as escolhas que fizeram juntos durante a transição anterior e em torno das quais construíram toda uma vida em comum. Isso pode ser ameaçador para o relacionamento. É comum um dos dois interpretar o desejo do outro de repensar escolhas profissionais passadas como um sinal de que é preciso repensar também o relacionamento, ou até a possibilidade de terminá-lo. Os casais que lidam bem com essa transição descobrem formas de se conectar a apoiar mutuamente por meio de um processo que pode parecer bastante solidário.

A segunda transição geralmente começa — como foi o caso de Camille e Pierre — quando um dos cônjuges reexamina sua carreira ou sua trajetória de vida. Ele precisa refletir sobre questões como: o que me levou a este impasse? Por que fiz as escolhas que fiz? Quem sou eu? O que quero da vida? Quem eu pretendo me tornar? E explorar caminhos alternativos por meio de networking, job shadowing, atividade temporária, trabalho voluntário e assim por diante. A reflexão íntima e a exploração individual podem levar os casais à primeira armadilha da segunda transição: Falta de confiança e atitudes defensivas. Viver com uma pessoa preocupada em explorar novos caminhos pode ser ameaçador. As questões dolorosas afloram: por que ele não está satisfeito? Este problema tem a ver com a carreira ou com o relacionamento? Sou eu o culpado? Por que ele precisa de novas pessoas? Não sou mais suficiente? Tais dúvidas podem levar à desconfiança e a atitudes defensivas, forçando a pessoa em crise a se afastar ainda mais do relacionamento, deixando o outro ainda mais desconfiado e defensivo, até finalmente o próprio relacionamento se tornar um obstáculo, e não um espaço para a individualização.

Em tal situação as pessoas deveriam, primeiro, ser sinceras sobre o que as aflige e garantir ao companheiro que suas angústias não estão relacionadas a ele ou ao relacionamento. A seguir, adotar o que a crítica literária chama de suspensão da desconfiança — que é acreditar que suas dúvidas se desdobrarão de formas interessantes e que vale a pena prestar atenção. Esta atitude enriquece a convivência e intimidade.

Finalmente, elas devem entender e exercer seu papel de apoio. Os psicólogos chamam essa função no relacionamento de base segura e a consideram vital para o crescimento mútuo. Originalmente identificado e descrito pelo psicólogo John Bowlby, a base segura nos permite avançar além de nossa zona de conforto enquanto alguém ao nosso lado alivia nossas ansiedades no processo. Sem interferir demais, os apoiadores devem encorajar o companheiro a refletir, mesmo que isso signifique sair do conforto que criaram no relacionamento.

No entanto, ser uma base segura para o companheiro tem suas próprias armadilhas:

Apoio assimétrico. Em alguns casais um cônjuge apoia consistentemente o outro sem receber apoio de volta. Foi isso que aconteceu com Camille e Pierre. A experiência de Pierre em seu casamento anterior, em que sua esposa desistiu da própria carreira em benefício da dele, tornou-o determinado a apoiar Camille. No início, ele se dispôs a ser a base segura para ela. No entanto, a vida dos dois estava tão sobrecarregada que Camille teve dificuldade em encontrar a energia para retribuir o apoio. O resultado foi que sua reflexão se tornou um obstáculo para Pierre, criando um impasse para o relacionamento. É importante lembrar que agir como base segura não significa anular seus próprios desejos, desculpar-se pelo egoísmo do passado ou ser perfeito. Você pode ser um apoiador maravilhoso e ao mesmo tempo solicitar apoio de volta e ter tempo para si mesmo. Na verdade, isso o tornará um apoiador muito melhor
(e menos ressentido).

Em minha pesquisa descobri que os casais que atravessam a segunda transição são aqueles cujos cônjuges encorajam um ao outro a fazer esse trabalho.

Uma vez que o cônjuge em introspecção teve a chance de determinar o que quer na carreira, na vida, ou no relacionamento, o próximo passo é fazer acontecer — como casal. Ambos precisam renegociar o papel que cada um desempenha na vida do outro. Matthew e James, outro casal com quem conversei, ascenderam profissionalmente em seus 18 anos de vida juntos. Quando Matthew percebeu que ele queria descer do que chamou de trem do sucesso — no qual se sentia um mero passageiro —, ele e James tiveram de abandonar sua identidade como casal com poder e reavaliar o acordo de prioridade de carreira estabelecido durante sua primeira transição. Inicialmente, Matthew relutou em expor suas dúvidas a James, porque se questionava se James ainda o amaria se ele mudasse de rumo. No entanto, quando eles começaram discutir a questão perceberam que sua identidade como casal com poder os prenderia numa dinâmica em que teriam como obrigação ser bem-sucedidos sem que nenhum fizesse sombra para o outro. Reconhecer e renegociar este acordo tácito permitiu que James se lançasse para sua primeira posição de executivo sênior e Matthew mudasse para o Terceiro Setor. O tempo e a atenção gastos para resolver suas dúvidas existenciais e renegociar o papel de cada um na vida do outro os habilitaram a vivenciar um período de crescimento renovado na carreira e no relacionamento.

Transição 3
PERDA E OPORTUNIDADE

Comparecer ao enterro de sua mãe foi uma das experiências mais difíceis da vida de Norah. Foi a culminação de dois anos de enormes mudanças para ela e seu marido, Jeremy, que estava perto dos 60 anos. A mudança começou quando o pai de Norah e o de Jeremy inesperadamente faleceram com cinco semanas de diferença, e eles tornaram-se cuidadores da mãe doente de Norah, exatamente quando os filhos do casal deixavam o ninho e a carreira deles começava a progredir.

Jeremy é artista visual digital. Os principais projetos de seu estúdio estavam sendo encerrados porque um grande cliente estava saindo. Embora triste, ele ainda estava suficientemente confiante para se entusiasmar com o que pudesse surgir. Norah trabalhava havia 26 anos na mesma pequena empresa de máquinas agrícolas. Uma vez ela quis mudar de profissão, mas sentiu que não devia fazer isso enquanto Jeremy precisasse dela como apoio emocional e logístico. Agora ela estava sendo sondada para fazer um acordo de aposentadoria antecipada. Ela se sentia jogada num depósito de ferro-velho, apesar de sua longa dedicação à empresa. Sem carreira, sem os pais e sem filhos para cuidar — que era ela agora? Ela estava desorientada e sem rumo.

Normalmente, a terceira transição surge quando a mudança de papel ocorre mais tarde na vida, quando se cria um profundo sentimento de perda. Carreiras estacionam ou declinam, corpos já não são o que eram, filhos (se houver) saem de casa. Às vezes, a carreira de um dos cônjuges segue firme e forte enquanto a do outro começa a recuar. Por terem dedicado a vida inteira à carreira e à criação dos filhos, os casais um dia acordam ao lado de alguém que já não parece aquela pessoa por quem se apaixonaram. Ambos podem se sentir assim. Essas mudanças mais uma vez suscitam questões fundamentais de identidade: quem sou eu agora? Quem eu quero ser pelo resto da vida?

Embora a perda dispare a crise de identidade, a terceira transição é um prenúncio de oportunidades. As chances de reinvenção mais tardias são comuns, principalmente no mundo atual. A expectativa de vida vem aumentando no mundo todo, e os casais mais velhos podem desfrutar de várias décadas de boa saúde, liberdade e intensa participação na educação dos filhos. À medida que as profissões e o mundo do trabalho se tornam mais flexíveis, principalmente para os mais experientes, as pessoas podem se envolver em várias atividades com mais facilidade que as gerações anteriores — combinando trabalho de assessoria e consultoria com serviços prestados a conselhos, por exemplo. Suas atividades em geral consistem em contribuir para a comunidade, deixar algum tipo de legado, orientar gerações mais jovens, redescobrir paixões da juventude, ou dedicar-se mais às amizades.

Sua tarefa na terceira transição é reinventar-se mais uma vez — agora, de forma tanto assentada em realizações passadas como otimista quanto às possibilidades futuras. Os casais precisam prantear o que é antigo, acolher o novo, descobrir como ambos se completam e ajustar sua trajetória de vida rumo à pessoa que querem ser.

Uma coisa que me impressionou quando falei com casais em sua terceira transição é que ela é mais poderosa quando os dois se reinventam juntos — não apenas refletindo juntos, como nas outras transições, mas assumindo uma nova atividade ou projeto lado a lado. Quando alguém tem curiosidade sobre a vida e trabalho não só do companheiro, mas também da sua, uma enorme capacidade de revitalização mútua é desbloqueada. Eu conheci vários casais que, nessa transição, percorreram novos caminhos — começando um novo negócio juntos, por exemplo.

A terceira transição também contém armadilhas:
Negócios inacabados. Para melhor ou para pior, os padrões de relacionamento, abordagens, decisões e suposições anteriores influenciam a forma como se desenrola a terceira transição do casal. Descobri que o desafio mais comum em administrar essa transição foi superar antigos ressentimentos — primazia da carreira em detrimento da família ou falta de apoio mútuo, por exemplo.

Para navegar pela terceira transição, os casais precisam entender como chegaram ao ponto em que estão e se comprometer a desempenhar novas funções um para o outro no futuro. Norah e Jeremy se ativeram ao padrão no qual Norah era a apoiadora de Jeremy. Ao reconhecer isso — e com a consolidação das funções de ambos —, eles conseguiram ser mutuamente mais apoiadores.

Horizontes estreitos. No momento em que um casal chega à terceira transição, eles provavelmente já terão sofrido uma cota de decepções e reveses. Eles podem estar cansados de anos cuidando um do outro, ou simplesmente de continuar na mesma rotina. À medida que seus papéis mudam e crescem as dúvidas sobre a própria identidade, reinventar-se pode ser uma opção. Além disso, como as gerações anteriores se aposentavam mais cedo, não viviam tanto e não tinham acesso à economia GIG, muitos casais não dispõem de modelos do que seja a reinvenção nesta fase da vida. Se eles não expandirem seus horizontes, perderão oportunidades de se redescobrir.

Por isso, os casais precisam mais. Mais que na segunda transição, os casais precisam flertar com várias possibilidades. Como crianças sadias e curiosas sobre o mundo, sobre si mesmas e os que as cercam, eles devem procurar novas experiências e experimentar ativamente, evitar as certezas absolutas e perguntar constantemente “por quê?”. A maioria de nós reprime a curiosidade da infância à medida que a vida passa e as responsabilidades se acumulam. Mas é essencial superar o medo de deixar para trás um self querido e permitir que as ambições e prioridades se diversifiquem. Neste estágio, explorar é rejuvenescer.

As mudanças nas funções e na identidade oferecem uma desculpa perfeita para questionar a vida, o trabalho e os amores. Muitas pessoas associam explorar a analisar novas opções, o que certamente é importante. Mas trata-se também de questionar suposições e abordagens e perguntar “é assim mesmo que as coisas têm de ser?”.

Ao reequilibrar seu apoio mútuo, Norah e Jeremy puderam se abrir para novas possibilidades. Tendo conseguido segurança financeira com seu trabalho anterior, eles procuraram a reinvenção não só na carreira, mas também em seu papel amplo no mundo. Encorajando-se mutuamente, os dois mudaram para uma vida profissional diversificada.

Jeremy tornou-se artista visual digital freelance, assumiu um trabalho de meio período como professor de arte de jovens alunos numa faculdade e passou a dedicar mais tempo à sua paixão de velejar. Norah se recapacitou para ser aconselhadora de famílias problemáticas e começou a trabalhar como voluntária no museu agrícola de sua cidade. Com essas novas oportunidades, e mais tempo para si mesmos e para os amigos, eles sentiram uma satisfação renovada com seu trabalho e com seu relacionamento.

OS DESAFIOS QUE OS CASAIS enfrentam em cada transição são diferentes, mas estão associados. Na primeira transição, eles se acomodam perante um grande acontecimento negociando as funções que terão na vida um do outro. Com o tempo essas funções se tornam restritivas e disparam a inquietação e o questionamento que levam à segunda transição. Para navegar com sucesso pela terceira transição, os casais precisam resolver os arrependimentos e assimetrias de desenvolvimento remanescentes das duas primeiras transições.

Não existe caminho ou solução certa para enfrentar tais dificuldades. Embora os casamentos 50/50 — nos quais as atividades domésticas e a criação dos filhos são igualmente partilhadas, com perfeita sintonia entre a carreira de um e de outro — possam parecer um ideal nobre, minha pesquisa indica que, em vez de tentar obsessivamente manter um “resultado” empatado, para os casais com carreira independente o ideal é serem incessantemente curiosos, comunicativos e proativos nas escolhas, e assim harmonizar sua vida.

Fonte: hbrbr.uol.com.br

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