Sim, as empresas já enfrentaram crises financeiras, como a Grande Recessão em 2008 ou o estouro da bolha da internet no início da década de 2000, e muitas tiveram de enfrentar guerras e ataques terroristas, surpresas nas eleições e outras crises no âmbito da saúde. Contudo, é a primeira vez que economias estabelecidas e evoluídas enfrentam um choque como este. E nada se compara à divisão entre o físico e o digital, provocada pela Covid-19, e como isso afeta a natureza do trabalho.

De certa forma, uma transformação digital gigantesca que já estava a caminho pode explicar o que está acontecendo hoje. Há anos, as empresas utilizam, cada vez mais, uma estrutura digital baseada em software, dados e redes digitais, o que exige uma arquitetura operacional essencialmente nova. Da Ant Financial ao Facebook, a nova empresa digital obtém vantagem competitiva de três formas: ao produzir mais por um custo unitário menor (escala), ao conseguir maior variedade na produção (escopo) e ao implementar melhorias e inovação (aprendizado).

Adotar esse paradigma digital que envolve escala, escopo e aprendizado já é difícil, até mesmo para organizações bem estabelecidas. A pandemia está tornando o desafio ainda mais complexo, ao inserir uma quarta dimensão nos modelos operacionais digitais: o trabalho virtual — e essa dimensão se mostra cada vez mais importante. Atualmente, em vez de digitalizar a relação entre a empresa e o consumidor apenas, o modelo virtual digitaliza a relação entre a empresa e o funcionário. Como resultado, os escritórios se tornam menos importantes; trabalhar de casa não é apenas possível, mas também, muitas vezes, preferível.

Essa necessidade de virtualizar o trabalho por conta da Covid-19 impulsiona a transformação digital e aprofunda as diferenças entre as pessoas e entre as empresas a um ritmo inacreditável. Em apenas alguns dias, quase todos os processos que poderiam ser rapidamente digitalizados foram virtualizados — por exemplo, videoconferência para a discussão de um caso e telemedicina para permitir o diagnóstico e o tratamento remotos. Estamos testemunhando a digitalização de muitas atividades tradicionais; a Bolsa de Valores de Nova York fechou seu pregão e passou a negociar de forma eletrônica.

No entanto, alguns negócios e processos ainda necessitam da proximidade física, como hotéis, hipermercados, concessionárias de veículos, estabelecimentos que comercializam alimentos e o varejo tradicional. Adicionalmente, nem todas as empresas que operam de forma digital podem ser virtualizadas da mesma forma. Apesar de possuírem uma estrutura operacional que, em sua maioria, depende de software e dados, a Uber e a Lyft contam com comunidades extensas que realizam atividades tradicionais para atender às necessidades operacionais da empresa. De modo semelhante, a Amazon emprega milhares de trabalhadores que exercem atividades manuais em centros de distribuição e que dirigem caminhões de entrega.

Os riscos que estão em jogo na transformação digital aumentaram drasticamente. Neste momento, digitalizar a arquitetura operacional da empresa não é uma simples receita para melhorar o desempenho, mas sim, algo extremamente importante para o emprego dos trabalhadores e a saúde pública. Isso acaba criando uma nova desigualdade digital que irá aprofundar ainda mais as divisões na nossa sociedade. As empresas que não conseguirem mudar imediatamente ficarão em grande desvantagem e irão expor seus funcionários a riscos mais altos de problemas financeiros e físicos. Essa desigualdade não acontece apenas entre as empresas, mas também dentro delas. Na Amazon, considerada uma das organizações digitais mais bem-sucedidas do mundo, os funcionários que trabalham nos centros de distribuição estão começando a protestar.

Certamente, a desigualdade aumentará. Ao passo que os negócios que podem ser facilmente virtualizados – como educação e software continuam operando – outros acabam fechando e gerando demissões. Em 26 de março, o Ministério do Trabalho dos Estados Unidos informou que  3,3 milhões de norte-americanos haviam solicitado o seguro-desemprego durante a semana, o maior número da história. Em um momento frágil como esse, devemos reconhecer que a economia não consegue sobreviver com apenas empresas digitais. A crise provocada pela Covid-19 nos mostra, de forma aterrorizante e bastante próxima, como a desigualdade digital continuará sendo uma realidade. As empresas e o governo conseguirão atuar juntos para impedir um futuro como esse?

Fonte: hbrbr.uol.com.br

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