Eu herdei uma característica que eu considero como uma das mais formidáveis e plenas: a de ouvir, escutar e interpretar o que o outro deseja externar, usando ou não, palavras. Numerosas pessoas já se abriram comigo sobre incontáveis temas. Um deles são suas estrambólicas insatisfações com seus empregos e o que vejo é que elas são as maiores culpadas por habitarem esse enfadonho e sombrio castelo do qual são reles escravas de suas próprias decisões, egocentrismos e metas.

O trabalho é uma das maiores honras que alguém pode ter: ser útil aos demais e desenvolver competências torna a natureza humana realizada e feliz. Todavia, muitas pessoas são infelizes em suas atividades profissionais, o que as transforma em criaturas que passam a odiarem aquilo que mais as deveriam motivar e orgulhar.

O lendário Confúcio inteligentemente disse: “Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida.” O que o sábio pensador externa em seu augusto pensamento é que antes de pensar em trabalhar a pessoa precisa se descobrir: encontrar seus talentos e depois encaixá-los em uma atividade que seja lucrativa e produtiva para a sociedade.

Esse caminho não é simples, uma vez que é complexo olhar a si mesmo. É algo que traz medo, que inflama o ego e nem sempre estamos dispostos a contemplarmos o nosso próprio reflexo no espelho.

Quando eu estava em Madrid, na Espanha, conheci um senhor de setenta e cinco anos de idade em uma praça. Ele estava tomando café em uma linda xícara de porcelana e lendo um formoso livro de poesias. Ele era alto e tinha uma barba grande e branca. Conversamos sobre vários assuntos, mas um deles me chamou muita atenção: ele tinha um filho que era bem sucedido, casado com uma esposa linda, com dois belos filhos e muitos amigos e parentes para amar, mas estava sofrendo de profunda depressão.

Esse senhor me contou que esse filho era o mais velho, dentre os cinco que ele possuía, e que este havia lhe confessado na noite passada que se sentia só, mesmo estando cercado de muitos homens e mulheres que o amavam. Desta forma, ele tinha tudo que qualquer pessoa sonha em ter: status, uma graciosa esposa, filhos maravilhosos, dinheiro, amigos, no entanto faltava o mais significativo: ser completo. E por se sentir incompleto nada poderia o fazer feliz: nem uma grandiosa festa de aniversário, nem uma viagem em família numa ilha paradisíaca, nem a compra de presentes incríveis, nem uma jubilosa noite de amor com a esposa, nem os melhores filmes do mundo, nem a companhia de amigos fiéis e únicos, nem amorosos pais cheios de dedicação e generosidade, enfim absolutamente nada o fazia se sentir cheio, realizado por dentro.

Isso aconteceu por conta desse jovem viver uma vida que seus pais escolheram para ele, ao invés dele ter a liberdade de escolher aquilo que realmente o fazia se sentir vivo.

Os conselhos, a ajuda dos entes mais velhos, uma vida estruturada financeiramente são esferas sublimemente cabais para uma pessoa alcançar seus planos e objetivos, sejam eles profissionais ou pessoais, todavia a autonomia de ser você mesmo sobrepuja completamente essas questões. Estar com o coração vazio é ainda pior do que não ter o que comer, o que vestir e onde dormir.

Com o tempo, uma pessoa que permite que as outras façam escolhas em seu lugar vai ficando desalmada e perde seus atributos para o funesto fantasma da apatia, da melancolia, do caos. É indubitavelmente terrível viajar pelas estradas do arrependimento e da culpa, haja vista que as dores são profundas e diabolicamente marcantes. Usando outras letras, a chama que mantém o cosmo vai sendo apagada até que o entusiasmo pela existência vai ficando ínfimo, assim como os dons originais que passam a serem acorrentados e moldados para ficarem pateticamente limitados.

O trabalho é uma qualidade necessária, mas não pode ser algo penoso e tedioso. Todos nascem com alguma competência e devem ser bem remunerados por ela. Mas não é apenas o valor material, precisa ser um ofício que entusiasme e que tenha reconhecimento dos demais. Tudo isso é impossível sem que saiamos da conformidade, da nossa zona de conforto. A covardia jamais permitirá que rumemos do arraial da mediocridade para que saibamos encontrar a insigne e preclara excelência. Foi pensando nesta e em outras importantes questões que Mark Twain disse: “Daqui a alguns anos você estará mais arrependido pelas coisas que não fez do que pelas que fez.”

Eu já perdi coisas valiosas e aprendi que é fundamental compreender que há fatos e acontecimentos que não dependem das nossas vontades, pois a existência é adornada de surpresas que nem sempre são agradáveis. E a existência seguirá seu rumo, independentemente das cicatrizes que herdamos. Vejo muitos amigos e colegas se assustarem quando são demitidos, quando suas empresas morrem e quando seus projetos pessoais, como um casamento ou uma pós-graduação, por exemplo, não são afortunados.

Enxergo diversos jovens não desfrutarem das maravilhosas alegrias que a vida oferece, o que os traria encantadas formas de regozijo e satisfação. Eles simplesmente deixam de realizarem coisas extraordinárias por causa do tolo receio de tentar ou por não enxergarem essas incríveis possibilidades.

Contemplo ainda, que existe gente que se cerca de idiotas, de pessoas negativas. Não entendem que trazer pessoas de valor para perto de nossas moradas é uma das melhores e mais assertivas formas de sermos venturosos. Definitivamente, há pessoas que nos elevam a lugares magníficos com suas airosas formas de serem. Estar com essas criaturas nos faz navegar em águas que nos enchem de paz e vasto contentamento.

O que pensamos também nos joga para a luz ou para as trevas. Não é atoa que as pessoas gratas costumam ser mais motivadas que as outras. O pensamento é o radar da alma: se ele é otimista e cristalino, todas as outras atmosferas se tornam também. Sem contar que ele eleva nossas habilidades a patamares excelsos e gloriosos, pois gera ideias, inovações e criatividade. O príncipe da lógica, Albert Einstein, sabia disso e passou a vida toda defendendo que a imaginação é bem mais significativa que o conhecimento.

O que me faz feliz é a possibilidade de aprender sempre. Ao notar que posso ser melhor tenho um largo sorriso no rosto, pois sei que poderei ajudar o próximo com o meu aprendizado e minha gloriosa luz que irradiará o opaco caminho dos demais. Sou completo quando faço o bem para as pessoas: sendo altruísta, reconciliador e justo. Sem essas ações eu seria como um pássaro que voa de olhos fechados ou como um apequenado arco-íris sem cor.

Como podemos serenamente perceber, a essência da felicidade está dentro de cada um de nós e depende mais das nossas escolhas e visão de mundo do que de fatores externos. É impossível alcançar a felicidade por intermédio do outro apenas, visto que ela está dentro do âmago, em um lugar que somente nossa identidade e consciência podem esplendorosamente chegar.

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